A coisa e a não coisa. Ou não.

Podemos ver o mundo de várias e várias maneiras.

Eu, como historiadora da ciência, posso ver tudo como “coisa”.
E daí começo a pensar em matéria e penso: “sou materialista”.

Ou posso, como historiadora da ciência, ver tudo como “não-coisa”.
E daí começo a pensar em matéria e penso: “sou animista”.

Ou sem deixar em pensar em “coisas” e matéria, posso pensar em cadeias de causalidades e pensar em “coisas” que causam “não-coisas” que podem causar “coisas”.

Ou posso pensar que não existe “causa e efeito”, que causa e efeito são só sensações causadas por repetições que hoje ocorreram e ontem também, mas que amanhã podem não acontecer.

Inclusive com “coisas vivas”.

Hummm… e daí, por uma série de motivos, “esbarro” em “vida é mais que matéria, inclusive porque se o todo é mais que as suas partes, a vida é mais do que supõe a física e química pensando a matéria”.
E daí penso: “sou vitalista”.

Ou não, se penso que “a matéria que faz a vida” é mais importante que “a vida em si”, e daí volto a ser materialista.

E posso pensar que um ser vivo funciona como uma máquina.
E daí penso: “sou mecanicista”.

Ou posso pensar que o ser vivo é um “ ‘juntamento’ de matéria que funciona como uma máquina”.
E daí penso, “sou uma materialista mecanicista”.

Ou posso pensar em um ser cibernético do século XXI, um ciborgue feito com a inteligência artificial deste século, em que toda a programação que nele “roda” fez com que nele emergisse algo muito parecido com… vida!
E daí penso, “não sei mais o que sou”.

E daí percebo que “queimei etapas”.

Há pessoas que pegam o corpo de seu cão morto e o jogam em um lixão.
Há pessoas que pegam o corpo de seu cão morto e o enterram ou cremam, agradecendo profundamente ele ter existido em sua vida e honrando seu “invólucro terreno”.

Há pessoas que ao lidarem com cadáveres humanos o fazem com um misto de nojo e repulsa ou indiferença.
Há pessoas que ao liderem com um cadáver humano o fazem com respeito, sabendo que ali está um receptáculo que conteve uma vida.

Há pessoas que acham que valem mais que uma árvore e a derrubam. Ou que valem mais que um rio, e o destroem.

Há pessoas que lidam com pessoas a beira da morte honrando e festejando sua vida.
Há pessoas que lidam com pessoas a beira da morte com uma tristeza mortificante.
Há pessoas que lidam com pessoas a beira da morte com repulsa.
Há pessoas que lidam com pessoas a beira da morte com revolta e não-aceitação.

O problema não é a coisa, a matéria, a máquina, o problema somos nós e o que fazemos com nossas vidas.

E como então falar do medo de que um robô nos traia e nos mate?

O que me ocorre é “por que não teríamos este medo?”.

É o que fazemos uns com os outros desde o início dos tempos, e se eles aprenderem isso, os ciborgues, só estarão provando serem bons aprendizes…

 

 

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