Vamos (precisamos) desaprender?

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De há muito venho ouvindo (com prazer) a Carla Ferro[1] falar sobre não-escolarização[2] e desescolarização[3].

E confesso que, apesar de me achar razoavelmente esperta, demorei para entender que a não-escolarização é para crianças e que a desescolarização é para adultos.

É irônico que alguém como eu, que tem experiências de aprendizagem em todos lugares que vai e em todas situações que está, tenha demorado tanto a perceber que, para que a aprendizagem se faça livre em mim e se desfaça de vez dos muros e prisões em que foi colocada, eu teria que me desescolarizar.
E que por mais que eu seja uma praticante fiel e ativa disso, o processo de me libertar da escola tradicional é algo que ainda estou realizando.

É complicado.

Não é só o local. Não é o “onde” a escola é ou está.
Seria um contra-senso eu aderir a ideia de que o problema seria “o local”, se cada vez mais o local, o ecossistema, o design deste ecossistema são temas de conversas mais que frutíferas para comunidades de aprendizagens, comunidades de negócios, coworking e outros.

Não são só as pessoas.
Neste sentido, também as conversas sobre formação e manutenção de comunidades de trabalho em hacker spaces, em fab labs e outros, são cada vez mais frequentes e frutíferas. Por que nestes espaços também acontecem, e de maneira muito ativa, aprendizagens, através das pessoas que lá estão.

Não é necessariamente como faço a aprendizagem do conteúdo.
Se eu percebo que aprendo de uma maneira mais tradicional, ok.
Mas o que é “de uma maneira mais tradicional” para mim já entra no escopo de coisas que tenho que ter cuidado.

Porque o mais complicado disto tudo é o controle, é o “eu sou quem ensina, você é quem aprende” ditado e imposto de maneira rígida e autoritária. E a rígida hierarquia imposta para aqueles que “são os que ensinam”.
Estas rígidas estruturas de poder que permeiam todos estes processos matam o prazer de aprender/ensinar, o prazer da convivência, o prazer da evolução. E deixam os locais densos e pesados.

E o pior de tudo: o fato de agirem como se o “eu sou uma garrafinha vazia que deve ser preenchida com um saber não escolhido por mim nem para mim” fosse uma verdade.

Alguns problemas decorrentes deste tipo de raciocínio:

  • Eu não sou “uma garrafinha” e minha mente não funciona como uma.
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  • Eu não sou igual a você e nem você é igual a mim, e enquanto eu acho este fato fascinante, o “sistema escola que é o mesmo desde o medievo” acha isso uma desgraça, principalmente no ensino básico.
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  • Se eu uso o sistema de “garrafinha” para aprender e apreender conteúdos, fora de qualquer trilha imposta ou local “oficial” e/ou quero fazer ligações não óbvias entre saberes, eu tenho problemas. As coisas rapidamente começam a não fazer sentido.

E se eu continuar este processo, começo a sentir necessidade de “desaprender” hábitos, métodos, traumas etc, etc, etc que não só não fazem o menor sentido, como me atrapalham.

E fazer isso sozinho até pode ser produtivo, mas fazer este processo em comunidades de aprendizagem é MUITO mais produtivo.

Principalmente porque aprender (e apreender) de maneira que o conteúdo faça sentido para mim é algo que envolve emoções, envolve significados e significações, envolve os sentidos. E quando envolve trocas, isso tudo se processa em uma velocidade muito maior do que quando se faz sozinho. E os insights e “eurekas” acontecem com frequência muito maior.

Então por que não fazer isso em comunidades de aprendizagem e com facilitadores e mentores?
Focando nas pessoas, no seu autoconhecimento, na construção de seu protagonismo, na formação da comunidade, em locais que incentivem tudo isso e, em consequência, façam aparecer “novas lentes de se olhar a realidade”.

Esta colocação das “novas lentes” é interessante. Pois isso significa que mesmo que você continue atuando no mesmo lugar que atuava antes, você não vê mais o mesmo. Então posso atuar em mudanças de realidade mesmo estando no mesmo lugar.

Envolve muita inovação social e muita experimentação. E cultura regenerativa.

E seria muito útil que quem se interessar, e puder apoiar as várias iniciativas que estão “pipocando” por aí, o faça. Os resultados já estão sendo dignos de nota. E podem ser mais.

Grata pela leitura.


[1] https://www.facebook.com/carlacferro

[2] Crianças que não vão para a escola para ter suas aprendizagens realizadas.

[3] Adultos que precisam aprender que as crianças não precisam ir à escola para aprender, mas que para isso precisam “tirar a escola de dentro de si”.

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