Diários da depressão

Da adolescência até a vida adulta.

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A depressão crônica profunda é a tradução menos poética do processo da alma se apagando.

Sumindo.

Como a chama de uma vela em seu fim.

Se ao final da vela, você ficar olhando o minúsculo pedaço queimando, você acompanha a chama até seu apagar.

É neste período de espaço-tempo que a depressão profunda vive. E onde a alma vive-sobrevive.

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“Depressão tem cheiro”.

Quando eu era veterinária clínica (e clinicava) ouvi uma vez algo que eu nunca esqueci: um cão da raça dobermann, que gostava do dono e o respeitava, tinha atacado seu dono a noite quando este chegou em casa muito bêbado. Aprendi então que o cheiro de álcool é extremamente agressivo ao olfato de cães. Tão agressivo que o cão não reconheceu seu dono. E o atacou.

Percebi que a depressão age assim em humanos que não a tem. Ela tem “cheiro”. A presença dela desperta instintos de sobrevivência profundos em humanos não-doentes e eles nem sequer percebem isso. E eles agem de acordo com este instinto profundo e são capazes de jurar que não estão fazendo nada. Mas estão fugindo. Mesmo continuando no mesmo lugar, eles estão fugindo. A depressão profunda parece que assusta o não-deprimido num nível absurdo e o doente depressivo na maioria das vezes não percebe isso. Ou não consegue perceber. E esta interação horrível vai piorando cada vez mais. E o deprimido idem. Esta interação é ruim para ele. Péssima. Mas quantos conseguem fugir? Ou querem? Ou os dois?

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A negação

Quem convive com um deprimido facilmente entra em negação.

Porque convive com algo do outro que lhe causa mal estar e ele, o não-doente, não sabe explicar ou entender o que acontece.

Uma das coisas mais tristes da depressão (e quanto mais profunda e grave e crônica ela é, mais isso se acentua) é que uma das consequências deste “apagar da alma” é que a comunicação verbal significativa também vai sumindo. A troca entre as pessoas vai sumindo. Parece má vontade, falta de esforço, desejo de isolamento (que pode acontecer), mau humor (que até acontece) ou algo que o valha, mas este “apagar” apaga até isso. As funções do viver, as mais básicas, estão ali. Mas está mais para um autômato que funciona no modo automático de maneira cada vez mais profunda. Ele está aí, mas não está.

Quem convive entra em modo negação: não sabe e não gosta (porque lhe afeta e lhe faz se sentir mal), então ignora.

E tudo isso tem consequências profundas. Para todos envolvidos.

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A depressão profunda

Existem graus e tipos de depressão.

Um dos piores tipos que existe é a depressão crônica profunda que vem desde a infância ou adolescência, e que muitas vezes é refratária a várias medicações.

Não sei se é este o termo médico e psicológico adequado, mas é aquela em que geralmente o psiquiatra demora ou não acerta a medicação, e quando acha um medicamento adequado, não consegue determinar a dose ou demora a conseguir fazer isso. E psicólogos e terapeutas tradicionais tentam ajudar, mas via de regra não conseguem a médio e longo prazo.

E ela tem um componente hereditário familiar muito forte.

Dá para mapeá-la nos seus parentes, em seus ascendentes consanguíneos.
E ouvir e descobrir histórias familiares muito tristes, quando não horripilantes.

E daí?

E daí que neste tipo de depressão, quem conseguir (porque a maioria não consegue), vai ter que achar seus próprios caminhos de manutenção de um estado mental minimamente saudável. Porque cura não há.

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“O processo da alma se apagando”

Tudo é na alma.

A dor começa na alma e se espalha pelo corpo.

O cansaço, idem.

O embotamento.

As cores vão indo embora, só fica o cinza.

E você não entende como tamanho “cataclisma” pode caber na sua alma.

Como pode existir tanta “fundura”. Por que dizem que todo poço tem fundo, mas alguns não tem.

E seu corpo não aguenta, e começa a desmontar.

Viver é um desafio que vai de difícil a inimaginável.

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A alma.

E uma coisa complicada: como tudo é na alma, a religiosidade faz diferença.

Não a religião, mas como cada um mexe, atua, sente, lida com o sagrado de sua alma. Como cada um lida com o seu religare.

Para quem não lida com sua religiosidade de maneira alguma, à medida que se passa da infância a adolescência, viver se torna um suplício cada vez maior. Viver é algo cada vez mais sem sentido.

Para quem lida com sua religiosidade baseado em culpa, o suplício é um inferno em vida. Porque se vive para sofrer.

Para quem lida com sua religiosidade considerando a alma mais importante que o corpo, a fuga é real e diária. A vida nele não é na matéria, está só levemente baseado em um corpo. E praticamente vive fora dele.

Eu fui escolhendo o sagrado da alma no corpo e procurando correntes, autores, práticas que agissem assim e que fizessem sentido para mim. Primeiro sem perceber e depois sabendo o que estava fazendo. Ajudou-me a permanecer no corpo. Mas é como uma constante escalada à e descida de picos altíssimos com neve constante. Para quem tem depressão profunda, “caminhar em planícies” não existe.

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“O processo da alma se apagando” no corpo

Não sei como é ou foi a outros, mas minha alma começou a se apagar na adolescência. A questão dos hormônios e do amadurecimento do cérebro na adolescência é MUITO complicado para quem tem depressão profunda.

Virar adulto foi assumir responsabilidades que eu não tinha cérebro e mente para assumir. Mas a alma tenta “aguentar o tranco”.

Para a mulher, engravidar é a certeza de uma depressão pós parto. De leve a pesadíssima. De leve loucura a crises de demência pós parto.

Mesmo que você não dê conta de um (de si), sua alma vai ter que se desdobrar e cuidar de outros. E ser mãe sem estar numa aldeia real é quase sinônimo de solidão, não importa quantos estejam a sua volta.

Numa aldeia real, as mulheres-mãe entram em estado profundo de sororidade, o que no mundo ocidental, não é valorizado ou incentivado. E com isso, fatalmente as mulheres-mães com depressão enfrentaram no seu dia a dia a “solidão em grupo”.

Os problemas do dia a dia tomam tamanhos maiores do que tem. Os pequenos. Os médios ficam enormes. Os grandes são bem complicados.

E ao longo do tempo, o corpo mostra seu cansaço perante essa constante “dança maluca de neurotransmissores”. E adoece. De várias coisas. De várias formas.

Vida real e doenças de alma desafiam. Muito.

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O “ao redor”.

Tem uma fábula que fala que sapo jogado em água fervente pula fora da panela na mesma hora, mas que sapo colocado na panela em água fria e levado ao fogo, não percebe o esquentar da água e morre cozido.

Na depressão crônica profunda, quando se está pelo menos razoavelmente harmonizado, e pequenos e médios transtornos vão desequilibrando a pessoa, é complicado o doente perceber o que está ocorrendo. As vezes ele vai ficar muito mal sem que perceba isso. E é nesses casos, em que “o sapo está cozinhando”, que alguém íntimo avisar o que está acontecendo é muito útil. É um “ponto cego”, não dá para se enxergar.
E aí que digo que terapia para quem está próximo ao doente também é fundamental. Porque fará que o aviso se dê sem culpa, sem julgamento, sem pré-conceitos.

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Meu caminho

Meu caminho, e é só meu, passou por adolescência conturbada sem entender “bolhufas” do que estava acontecendo, uma jovem adulta se encontrando um pouco, se descobrindo e se tratando com Homeopatia. Depois disso, psicólogas muito boas no caminho e médicos homeopatas idem. E muito crescimento espiritual via espiritismo, espiritualismo, xamanismo e fraternidade branca. Em seguida, algumas grandes confusões familiares, com mais psicólogas e médicas homeopatas. E uma descida ao inferno que veio acompanhada da pressão alta que eu não me dei conta e um AVC[1]. E a volta à Homeopatia, e o mergulho em Medicina Tradicional Chinesa e florais.

E, no momento em que cheguei a um nível de equilíbrio razoável, foi que percebi que meu falecido avô paterno, um tio paterno já falecido e uma prima já falecida haviam tido este tipo de doença. E muita coisa fez sentido.

E aqui estou. Indo. Imaginando agora que só tratamentos psiquiátricos tradicionais (que não fiz) no meu caso provavelmente não teriam funcionado. Ou talvez tivessem ajudado. Eu não sei. Mas eu sei que medicamentos fortes alopáticos não me fazem muito bem, então posso inferir que medicamentos alopáticos tarja preta também não fariam. Mas é meu caso, em análise “a posteriori”, por mim mesma.

Mas ressalto quer este caminhar é pessoal. Talvez tenha aí grandes aprendizados sobre o caminho a não se percorrer na depressão crônica profunda hereditária. Mas eu tive a graça de ter grandes profissionais me atendendo quando procurei e precisei e sou grata por isso.

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Um “prólogo” que vem no final.

Sou mulher, brasileira, branca, na faixa final dos cinquenta anos (nasci em 1960 e escrevi isso em 2019), hétero, com filhos, com pós-graduação, morando perto de grandes centros no estado de São Paulo – Brasil.

E estou falando de depressão clínica crônica profunda grave com forte componente hereditário. Doença. Não sobre tristeza ou outros tipos de depressão. Ou outros tipos de doenças mentais.

Ou seja, isso é sobre mim.

É o meu recorte. Meus contextos. Minha história.

Se servir a outras pessoas, OK. Se não, considere-se que seja só literatura.
Ou não.


[1] Acidente Vascular Cerebral.