Os rios: sistemas vivos ou “canos de água limpa”? E as comunidades?

Este é um artigo diretamente relacionado a alguns dos meus pressupostos: o mundo funciona como um organismo vivo, em rede[1] e como um sistema complexo.

E está também relacionado com um de meus maiores interesses: formação e manutenção de comunidades em rede.

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Há alguns anos li em um portal na WEB sobre o Córrego do Mandaqui[2]: limpo e sem peixes.

Um cano de água limpa sem peixes. E com um comentário de um morador da região que não entendia como um rio que estava limpo estava sem peixes.

Muitas (muitas mesmo) pessoas não entendem que um rio não é um cano com água limpa (ou suja), é um organismo, um sistema, e um sistema ecologicamente vivo. Ou ecologicamente não-vivo.

Este é um bom exemplo sobre uma visão vitalista de ser vivo. E vitalista porque usa como referência o ser vivo, e a vida, para tudo que olha, atua e estuda.

E também um ótimo exemplo sobre a visão de ecossistemas.

Como um rio, ou qualquer outro curso d’água, este é um organismo biológico e integrado à sua ecologia e ecossistemas próximos e distantes. Por que cursos d’água formam uma rede em que todos impactam o todo, mesmo que isso não seja ou esteja visível. A água, suas plantas, seus seres vivos, macroscópicos como peixes, microscópicos como vários componentes destes cursos d’água, o solo, a vegetação em volta, os animais em volta, o rio de onde este se originou, o outro rio para onde ele vai desaguar, etc, etc… e etc.

Ou seja, “mate” um rio e não é só um rio que se estará matando. É todo um ecossistema que “morre”.

E daí vem um desafio: se não se pensar em termos de macro-meso-micro[3], de microscópico à telescópico, indo e vindo neste ajuste de visões, a importância do local, do global e do glocal[4] se perderá.

E um desafio maior: perceber que olhar a partir da matéria bruta para a matéria viva não é o mesmo que olhar a partir da matéria viva para a bruta. Ou olhar a partir da vida para a matéria bruta não é o mesmo que olhar da matéria bruta para a vida. Vida, ainda que não possa ser definida, só descrita, supera a matéria bruta.

E outro desafio: você não se permitir ser sensibilizado por um tipo de visão que permita que você enxergue o que está olhando, e isso não só é um desafio, mas também é um impedimento.

Olhar um rio como “água dentro de grandes canos” não é o mesmo que olhá-lo como algo de faz parte de um todo que é essencial a todos nós e que está vivo. Ou que deveria estar vivo.

Pessoas[5] que estão fazendo coisas muito significativas com rios em áreas urbanas falam em renaturalização de rios. Eu talvez usasse o termo revitalização dos rios, trazer os rios de volta à vida. Revitalizar os ecossistemas destes rios e também trazê-los a vida.E trazer de volta a natureza ao seu redor.

Isso também vale para comunidades.

Vê-las como sistemas de pessoas, sistemas que formam um organismo vivo, não é o mesmo que vê-las como “juntamentos de gente”. Mesmo que este “juntamento de gente” tenha propósitos e cia.

Comunidades nascem e morrem continuamente, mesmo que continuem existindo.

Comunidades formam redes e fluxos, mesmo que seus nodos-pessoas mudem.

Comunidades fazem emergir coisas que não podem ser planejadas 100%, só podem previstas - até certo grau - em análises de cenários.

Comunidades tem vitalidade, e esta deve ser percebida e cuidada.

Comunidades, rios e pessoas exigem cuidados e acolhimentos. Desaprendemos a fazê-lo.

Reaprendamos, então.

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Este texto faz parte de uma série de textos que estou publicando e que são reflexões minhas sobre alguns temas e a comunidade que estou participando – Comunidade de práticas e aprendizagens Novas Economias – Oniversidade, que durará durante os anos de 2018 e 2019. A publicação destes textos ocorrerá em múltiplas plataformas: estarão armazenados em alguns sites meus, mas todos estarão também publicados no Medium[6].

Vejam mais sobre ela aqui:  https://www.catarse.me/novaseconomias

 

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[1] E em redes de redes, em redes de redes de redes… e segue por aí.

[2] Córrego do Mandaqui é um rio na Zona Norte de São Paulo.

[3] A nível macro, o mundo todo, por exemplo, ou a visão de um telescópio. A nível meso, minha casa, por exemplo, ou o que eu vejo a olho nu. A nível micro, um grão de poeira da minha casa, por exemplo ou o que eu vejo em um microscópio. Aqui para ajudar a entender: https://en.wikipedia.org/wiki/Level_of_analysis

[4] Glocal – saber e pensar sobre o global, e ao mesmo tempo saber, pensar e agir no local.

[5] Procurar ‘Rios e ruas’; ‘Rios invisíveis’; ‘Cidade azul’; ‘Entre rios’; ‘Volume vivo’ no Facebook.

[6] https://medium.com/@mariathebr

 

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